sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Projeto do livro de Claudia Leitte e o frisson causado frente à Lei Rouanet.

(Foto: Caio Duran/AgNews - Fonte: entretenimento.r7)

Eu voltei do almoço e enquanto saboreava meu sagu com creme resolvi retomar o assunto que pelo que vi no meu feed do Facebook é a bola da vez. Meu post anterior no Facebook quis ser racional, então deixemos a emoção (oportuna para o show daquela banda ou artista que cada um de nós, e particularmente, adoramos!) para outro momento. Toda essa publicização do assunto me faz pensar que os meios de comunicação querem: uma parte deles ibope e outra parte, usar o assunto como manobra da massa para o momento de crise pelo qual o país passa. Sabe aquela técnica de mudar o foco das coisas, é mais ou menos por aí.  Por outro lado é sabido no nosso meio, que vivemos na era da espetacularização onde: da selfie em velório com a foto do morto ao fundo aos debates virtuais acalorados no facebook, tudo ganhou ares de espetáculo, fama rápida.

Mas... Quem não teve seus cinco segundos de fama que atire a primeira pedra.

Retornando ao "cerne da questão" termo bonito né? Pois é, quem utiliza o mecanismo da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura através da plataforma Salic Web sabe que ela é técnica, aprovar um projeto requer conhecimento técnico do que lhe é pedido, não ser analfabeto funcional para entender os enunciados e não ser analfabeto digital para entender o que o sistema aceita ou não. Mas, mais que isso ao submeter uma proposta cultural o artista/produtor/gestor ou o que quer que seja tem que apresentar justificativas fundamentadas e concretas (não posso propor um espetáculo de fandango ou ópera em Marte) que sejam coerentes com orçamento e o plano de trabalho apresentados, sem falar das questões legais e de elegibilidade aplicadas ao proponente, etc, etc, etc.

Isto posto "vamos cutucar a onça com vara curta"! Claudia Leitte é brasileira, maior de 18 anos, tem a obrigação de votar, tem o dever de pagar impostos (todos o que conhecemos) inclusive IR, se fosse homem teria também que fazer o alistamento militar, porém, não "deve" submeter uma proposta cultural sua ou de sua produtora a um mecanismo de lei que está aberto a todos que atendam às exigências. 

Isso está certo?

Errado! A maioria das pessoas pensa com a emoção e se baseiam no senso comum desconhecendo as questões do direito. Não devemos confundir nunca os conceitos de legalidade e elegibilidade das coisas, e isso nem é o caso aqui, Claudia Leitte é elegível, e mais que isso, tem legitimidade pois representa um grupo. Não cabe a nós julgarmos no lugar do “outro” se isso ou aquilo é Cultura (conceito amplo que dá margem a muita discussão), aqui se trata de produto cultural e está atrelado a um determinado grupo para o qual a artista tem representatividade (seus fãs). Não muda nada se para mim ou para outrem a produção deste ou daquele artista é boa ou não, isso são valores subjetivos que só podem ser mensurados utilizando indicadores subjetivos, outros indicadores são utilizados para valoração de mercado, de matriz econômica e financeira, e nesse quesito a Claudia Leitte é mais rentável que o artista de rua desconhecido, e é por isso, que ela consegue patrocínio enquanto os demais talentosos, criativos, bons artistas veem seus projetos serem arquivados e o “sonho é comido por outro”. A captação é o pulmão do projeto (enquanto a criação é o coração e a produção o cérebro), item este que impede que boa parte dos projetos aprovados pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura (e os aprovados por outros mecanismos em esfera estadual ou municipal) sejam realizados.

Então veja que o problema da não realização não está atrelado à aprovação pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura ela é um meio (um instrumento) e não um fim.

A briga nas mídias e redes sociais deveria ser pela reestruturação da lei no que diz respeito à descentralização e a melhor distribuição dos recursos nas várias regiões do país e outros detalhes técnicos que possam otimizar a utilização do mecanismo. Mas o que sabe a população e o senso comum sobre isso? Nada! Quem desconhece o segmento fica no “achismo” preso a juízo de valor meritório desse ou daquele artista ou produto. Já quem atua no mercado sabe que o nosso gargalo tem sido a captação de recursos face à cultura adotada pelas empresas, que ora, criam suas próprias instituições, fundações e/ou estratégias para destinar seu patrocínio ao um projeto/ produto específico, fruto muitas vezes de algo desenhado especialmente para atender suas necessidades de brand, sem preocupação se isso atende à comunidade e público, e sim, se contempla a afirmação da marca no mercado, ora, porque muitas empresas de lucro real (aptas para uso desse mecanismo) têm receio que o patrocínio e/ou doação as façam cair na malha fina ou algum tipo de auditoria fiscal.

Como veem o problema está muito além do livro da Claudia Leitte ou o blog da Maria Bethânia, há muito que se fazer e discutir no segmento cultural brasileiro, mas temos que começar pela profissionalização do setor, pois será com conhecimento, informação e formação dos envolvidos nesse mercado que poderemos mudar em médio prazo o cenário.

Gente, só quem trabalha com produtos culturais sabe que o buraco é mais embaixo e ri quando vê colocações tão esdrúxulas que comparam “alho com bugalho”.

Pronto, falei!



(por Meg Mamede para o Cultura in Company)


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