sexta-feira, 1 de abril de 2016

Cultura imaterial, na pauta de hoje as festas populares.

(Imagem retirada do convite do Iphan para cerimônia de entrega do título de Patrimônio Imaterial Nacional à Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim em Salvador, BA)


Para entender conceitos temos que falar sobre eles e observá-los também, e com a Cultura não é diferente, ela por si só é tão ampla que nos confunde demasiado na hora de apontar o é que ou deixa de ser cultura, se é que há algo neste mundo que não provenha da Cultura. Hoje vamos abordar a cultura imaterial ou intangível, aquela que conhecemos a partir da memória, dos saberes populares, dos modos de fazer, da oralidade e de sua repetição quando esta já está tão enraizada em um grupo que se torna impossível dissociá-lo dela. Na pauta de hoje as festas populares.

Quem não gosta de festa? Desde que o mundo é mundo temos por hábito nos reunir para festejar. Seja para agradecer a colheita, festejar o nascimento do filho, a coroação do rei, o dia do santo, um casamento e em algumas localidades para celebrar a morte também. Sempre encontramos motivos para celebrar.

Festas que acontecem pelo mundo afora foram trazidas para o Brasil pela mão dos colonizadores e imigrantes, passadas de geração para geração e são representadas dentro do conjunto de expressões e tradições de um grupo ou sociedade. O que chamamos de patrimônio cultural imaterial. 

O Brasil tem festas para todos os gostos e a mais famosa delas, o Carnaval, tem origem no entrudo português e traz elementos da corte, da senzala, da casa grande e dos cortiços, mesclando-se numa festa pagã cujas origens segundo alguns historiadores estão no Antigo Egito, passando pela Grécia e Roma. Entre os carnavais mais famosos os de Veneza, Itália; Nova Orleans, E.U.A; Nice, França; Las Palmas de Canárias, Espanha e Oruro na Bolívia fazem a alegria do folião, mas nada se compara ao Carnaval brasileiro.

Temos também as festas religiosas como: o Círio de Nazaré de Belém do Pará que atraí milhões fiéis e turistas e a Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim em Salvador na Bahia* onde ritos católicos se fundem com a cultura afro-brasileira dos Candomblés e Umbandas. Já a Festa do Boi de Parintins no coração da Amazônia traz fortes elementos da cultura indígena num grande espetáculo de conotação popular. 

Temos ainda as Festas Juninas que acontecem nos quatro cantos do país. Na Festa de São João de Campina Grande, PB, moradores e turistas passam o mês de junho embalados pelo forró, na que ficou conhecida como a maior festa de São João do mundo. O São João  é comemorado em quase toda a Europa, culminando no solstício de verão (no hemisfério norte), em países como Portugal, Espanha, França, Itália com festas até na Letônia e Estônia, mas nem uma delas é tão grandiosa quanto a que ocorre aqui em Campina Grande na Paraíba.

E por falar em tradição não poderia esquecer a Festa do Divino de Mogi das Cruzes, uma das mais antigas do Estado de São Paulo e das festas do País Basco, norte da Espanha, das quais tive o prazer de participar no período em que lá vivi. Entre elas as festas populares de Orduña, Vitória-Gasteiz e Bilbao, com suas comidas e bebida típicas e o povo tomando as ruas das cidades até o amanhecer. Estive também na tradicional Festa de San Fermin em Pamplona, onde o famoso encierro atrai gente de todas as partes do mundo, de Ernest Hemingway a anônimos brasileiros como eu.

Não poderia me esquecer da Tamborrada de Donostia, onde bandas musicais conhecidas por comparsas e as companhias gastronômicas saem pela cidade acompanhados de seus tambores e barris. Tradição iniciada quando da ocupação napoleônica na península Ibérica. De um lado os soldados de Napoleão ocupando a cidade, marchando em formação e tocando seus tambores e, do outro, as mulheres que em resposta batiam nos barris que levavam consigo para trazer água das fontes. É curioso pensar no quebra-cabeça da história, uma ação desencadeando outra. Enquanto espanhóis davam passagem aos franceses, estes seguiam rumo a Portugal e a família real portuguesa cruzava o Atlântico rumo ao Brasil. Chegando a Salvador e seguindo para o Rio de Janeiro, transferindo a metrópole para colônia numa inversão de papéis. 

A família real portuguesa trouxe entre outras coisas, parte da nossa herança cultural e algumas das festas que hoje fazem a alegria do brasileiro. O país que tem o maior espetáculo da terra, também é o detentor de uma cultura imaterial riquíssima, por isso, a manutenção da tradição e o respeito às expressões populares são fundamentais para preservação da nossa cultura, garantindo o sentimento de identidade e continuidade que dá cor, tom, feição e alegria a nossa gente.


*A Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim é uma celebração tradicional que ocorre desde o século XVIII e está no calendário litúrgico e no ciclo de festas da cidade de Salvador e é realizada anualmente, sem interrupção, desde o ano de 1745. A festa articula duas matrizes religiosas distintas, a católica e a afro-brasileira, assim como incorpora diversas expressões da cultura e da vida social soteropolitana. Está profundamente enraizada no cotidiano dos habitantes de Salvador, sendo constituidora da identidade brasileira e manifestação com grande capacidade de mobilização social. Foi reconhecida em 2013 pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial Nacional.


(por Meg Mamede)


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